quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Ikea - Muito Bom !


"Os problemas dos clientes do IKEA começam no nome da loja. Diz-se «Iqueia» 
ou «I quê à»? E é «o» IKEA ou «a» IKEA»? São ambiguidades que me deixam 
indisposto. Não saber a pronúncia correcta do nome da loja em que me 
encontro inquieta-me. E desconhecer o género a que pertence gera em mim 
uma insegurança que me inferioriza perante os funcionários. Receio que 
eles percebam, pelo meu comportamento, que julgo estar no «I quê à», 
quando, para eles, é evidente que estou na «Iqueia»."

"As dificuldades, porém, não são apenas semânticas mas também conceptuais. 
Toda a gente está convencida de que o IKEA vende móveis baratos, o que não 
é exactamente verdadeiro. O IKEA vende pilhas de tábuas e molhos de 
parafusos que, se tudo correr bem e Deus ajudar, depois de algum esforço 
hão-de transformar-se em móveis baratos. É uma espécie de Lego para 
adultos. Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é 
que não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A 
questão, portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles 
caros. 

Há dias, comprei no IKEA um móvel chamado Besta. Achei que 
combinava bem com a minha personalidade. Todo o material de que eu 
precisava e que tinha de levar até à caixa de pagamento pesava seiscentos 
quilos. Percebi melhor o nome do móvel. É preciso vir ao IKEA com uma 
besta de carga para carregar a tralha toda até à registadora. Este é um 
dos meus conselhos aos clientes do IKEA: não vá para lá sem duas ou três 
mulas. Eu alombei com a meia tonelada. O que poupei nos móveis, gastei no 
ortopedista. Neste momento, tenho doze estantes e três hérnias. 

É claro que há aspectos positivos: as tábuas já vêm cortadas, o que é 
melhor do que nada. O IKEA não obriga os clientes a irem para a floresta 
cortar as árvores, embora por vezes se sinta que não faltará muito para 
que isso aconteça. Num futuro próximo, é possível que, ao comprar um 
móvel, o cliente receba um machado, um serrote e um mapa de determinado 
bosque na Suécia onde o IKEA tem dois ou três carvalhos debaixo de olho 
que considera terem potencial para se transformarem numa mesa-de-cabeceira 
engraçada.

Por outro lado, há problemas de solução difícil. Os móveis que comprei 
chegaram a casa em duas vezes. A equipa que trouxe a primeira parte já não 
estava lá para montar a segunda, e a equipa que trouxe a segunda 
recusou-se a mexer no trabalho que tinha sido iniciado pela primeira. 
Resultado: o cliente pagou dois transportes e duas montagens e ficou com 
um móvel incompleto. Se fosse um cliente qualquer, eu não me importaria. 
Mas como sou eu, aborrece-me um bocadinho. Numa loja que vende tudo às 
peças (que, por acaso, até encaixam bem umas nas outras) acaba por ser 
irónico que o serviço de transporte não encaixe bem no serviço de 
montagem. Idiossincrasias do comércio moderno. 

Que fazer, então? Cada cliente terá o seu modo de reagir. O meu é este: 
para a próxima, pago com um cheque todo cortado aos bocadinhos e junto um 
rolo de fita gomada e um livro de instruções. Entrego metade dos confetti 
num dia e a outra metade no outro. 

E os suecos que montem tudo, se quiserem receber.


Ricardo Araujo Pereira

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